O período carnavalesco passou, mas a política tocantinense segue marcada por um grande vácuo na corrida pelo governo do Estado. Apesar da existência de quatro principais pré-candidaturas — a senadora professora Dorinha Seabra, o deputado Amélio Cayres, Vicentinho Júnior e Laurez Moreira — o eleitorado ainda não se consolidou em torno de nenhum nome. Pesquisas de diferentes institutos, cada uma com sua metodologia, apontam um dado comum: mais de 70% dos eleitores permanecem indecisos ou dispostos a votar em branco/nulo. Esse contingente revela que o debate político ainda não chegou de forma convincente às camadas sociais, especialmente à classe média e baixa, que demonstram pouco interesse na disputa partidária.
A ANTECIPAÇÃO DO PROCESSO SUCESSÓRIO

A sucessão estadual foi antecipada a partir do desentendimento entre o governador Wanderlei Barbosa e seu vice, Laurez Moreira. Wanderlei tornou público, em alto e bom tom, que Laurez Moreira estaria conspirando contra ele e sua gestão, agindo junto a adversários do governo do qual faz parte, principalmente em Brasília, para desestabilizar a gestão. Wanderlei, inclusive, declarou que Laurez Moreira não contava mais com sua confiança.
Se Laurez Moreira já era visto como “persona non grata” por todos os aliados do Palácio Araguaia, a decisão do juiz Mauro Campbell, do STJ, de afastar Wanderlei Barbosa por 180 dias por conta de investigações de atos não republicanos, caiu como uma luva para que o vice-governador, ao assumir interinamente o governo do Estado, tratasse de consolidar sua pretensão de ser candidato ao governo, atraísse lideranças e parlamentares de oposição – e, o mais impactantes, alguns que eram da base de Wanderlei Barbosa tanto na Assembleia Legislativa quanto na Câmara Federal – e passasse a governar interinamente o Tocantins e a fortalecer sua imagem como “governador em busca da reeleição”.
Mas, eis que, 90 dias depois do afastamento de Wanderlei Barbosa, para surpresa de todos, uma decisão liminar do ministro Nunes Marques, do STF, catapultou Wanderlei Barbosa direta e imediatamente de volta à sua cadeira no Palácio Araguaia, fazendo o caldeirão político do Tocantins entrar no mais alto grau de ebulição.
AMÉLIO CAYRES: ENTRE A LEALDADE E A RUPTURA

O presidente da Assembleia Legislativa, deputado Amélio Cayres, ganhou musculatura política ao ser tratado publicamente por Wanderlei Barbosa como o candidato palaciano ao governo, após a decisão pessoal de não renunciar para concorrer ao Senado, abrindo mão de uma eleição certa, tanto dele quando da primeira-dama Karynne Sotero. Cayres era, então, presença garantida e figura de destaque em todos os eventos públicos do governo estadual, aparecendo, sempre, ao lado de Wanderlei Barbosa. Mas o surpreendente afastamento do governador trouxe uma nova realidade política para o Tocantins, que transformou Amélio Cayres de “protegido” para “protetor”.
Enquanto presidente da Assembleia Legislativa, no período de afastamento de Wanderlei Barbosa, Cayres enfrentou com galhardia pressões para pautar pedidos de impeachment, enquanto parte da mídia expunha fragilidades da gestão. Com a volta de Wanderlei ao cargo Cayres esperava dar continuidade à sua pré-candidatura, mas acabou ficando em posição delicada, uma vez que o grupo (novamente) palaciano, deu mostras clara de ter acolhido a pré-candidatura da senadora Dorinha Seabra ao governo.
Coube a Amélio Cayres aguardar uma definição clara do governador.
DORINHA SEABRA: DISCRIÇÃO E APOIOS ESTRATÉGICOS

A senadora professora Dorinha Seabra iniciou sua pré-campanha de forma discreta, mas rapidamente recebeu apoio de figuras de peso, como os senadores Eduardo Gomes e Carlos Gaguim, além de prefeitos dos maiores colégios eleitorais do Tocantins. O acordo firmado em Brasília, durante o afastamento de Wanderlei, consolidou Dorinha como candidata apoiada pelo governador, embora até hoje não haja declaração pública oficial confirmando esse apoio. Essa indefinição mantém tensões dentro do grupo palaciano.
ALIADOS AGUARDAM DECLARAÇÃO PÚBLICA DE WANDERLEI BARBOSA

De toda essa situação que envolve o governador Wanderlei Barbosa, o presidente da Assembleia Legislativa, Amélio Cayres, a senadora Dorinha Seabra e a decisão de quem será o candidato ao governo apoiado pelo Palácio Araguaia em outubro, a única certeza que se tem é de que o grupo palaciano não pode entrar rachado no processo sucessório.
Isso se explica pelo “telhado de vidro” que paira sobre a cabeça de todos até que seja julgado o mérito do processo que afastou Wanderlei Barbosa por 90 dias do comando do Estado e da liminar sob a qual ele foi reconduzido ao cargo.
Até lá, será cobrado de Wanderlei Barbosa que ele cumpra a promessa que fez de reunir todos os seus aliados em torno de uma só chapa majoritária. Vale lembrar que, até hoje, o governador não fez nenhum anúncio oficial sobre apoiar Dorinha Seabra ou Amélio Cayres para o governo do Estado.
LAUREZ MOREIRA E VICENTINHO JÚNIOR: A OPOSIÇÃO EM MOVIMENTO

Laurez Moreira, vice-governador, percorre municípios, dialogando com lideranças e fortalecendo sua pré-candidatura fora da base palaciana. Já Vicentinho Júnior, jovem deputado, cresce rapidamente ao se conectar com o eleitorado jovem e explorar o vácuo de indecisos. Ambos representam alternativas viáveis diante da fragilidade das alianças governistas.
O DESAFIO DOS INDECISOS

O dado mais relevante do cenário político, até agora, é o alto índice de indecisão. Mais de 70% dos eleitores ainda não escolheram candidato, o que demonstra que a disputa não será definida apenas por articulações políticas ou liberação de recursos, mas pela capacidade de apresentar propostas concretas para os próximos quatro anos. O eleitor quer clareza sobre projetos de governo, e até agora, os pré-candidatos têm evitado detalhar seus planos, aguardando as convenções partidárias.
TRADUZINDO
O Tocantins vive um momento de indefinição política. O vácuo eleitoral é resultado da antecipação do processo sucessório, das disputas internas no Palácio Araguaia e da falta de propostas claras. A janela partidária de abril será decisiva para reorganizar forças e definir candidaturas. Até lá, o grande protagonista da corrida é o eleitor indeciso, que poderá redefinir completamente o rumo da sucessão estadual.
Em sua próxima análise, o Observatório Político de O Paralelo 13 trará os bastidores da disputa pelas duas vagas no Senado Federal, a serem disputadas por políticos tocantinenses.
